Engenharia Civil 2009

Molhe Norte da Barra do Douro
Engº Fernando Silveira Ramos
Porto

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A Secil – Companhia Geral de Cal e Cimento, SA e a Ordem dos Engenheiros atribuíram o Prémio Secil de Engenharia Civil 2009 ao Molhe Norte da Barra do Douro, uma obra da autoria do Engenheiro Fernando Silveira Ramos. Este galardão, reconhecido como o Prémio de referência da Engenharia portuguesa, distingue, de dois em dois anos, a mais significativa solução de engenharia concretizada no biénio em análise.

A obra agora premiada é uma estrutura construída na margem norte da embocadura do rio Douro para resistir à ação direta das ondas de tempestade e das correntes das grandes cheias, onde estão incorporados mais de 65.000 m3 de betão e 2.500 toneladas de aço.

Para o Eng.º Fernando Silveira Ramos, a conquista do Prémio Secil, que classifica como “o Nobel da engenharia em Portugal”, foi acolhida com reforçadas razões de satisfação pessoal, dado que a obra distinguida exigiu “mais de 10 anos de trabalhos e de lutas, principalmente de lutas”, realçando também “as dificuldades próprias de um programa ambicioso que combinava exigências hidráulicas, sedimentares, estruturais, paisagísticas, de navegação e de integração urbana”.

O autor da obra premiada faz questão de salientar que se tratou “de um trabalho coletivo” concretizado por “uma equipa técnica de projeto e consultoria coesa e multidisciplinar”, enunciando, entre as principais bandeiras deste projeto, “a vitória da imaginação e da inovação na obra de engenharia sobre o habitual pragmatismo cinzento e repetitivo”, bem como “a transformação do ‘forte e feio’ molhe costeiro num equipamento urbano e lúdico de qualidade e de utilização pública”.

Fernando Coutinho da Silveira Ramos nasceu em Lisboa, em Maio de 1941, tendo-se licenciado em Engenharia Civil pelo Instituto Superior técnico, em 1966. Iniciou a sua atividade profissional, ainda como estudante, no Serviço de Hidráulica do Laboratório de Engenharia Civil, onde trabalhou como técnico Superior entre 1967 e 1972.

A partir de 1972 passou a exercer atividade profissional na empresa de estudos e projetos Consulmar, sempre nas áreas da engenharia costeira e portuária, assumindo responsabilidades de Direção em 1981.

Foi interventor ou responsável no desenvolvimento de muitos estudos e projetos portuários e costeiros de grande relevância e criatividade, casos dos projetos da reconfiguração dos portos de Viana do Castelo, Figueira da Foz, Aveiro e dos Terminais de graneis líquidos e sólidos de Sines. Foi ainda coordenador do Plano Estratégico de Desenvolvimento do Porto de Lisboa, onde se preconizou a reconfiguração do Terminal de Alcântara e a implementação do tráfego fluvial de contentores.

Alguns outros trabalhos merecem também destaque pela sua especificidade, como, por exemplo, os estudos que conduziram ao registo, em 2002, duma Patente Nacional no domínio das estruturas para construção de obras marítimas pouco refletoras, a construir no interior de bacias portuárias (estruturas já executadas no porto de pesca da Afurada e no terminal multiusos do Porto de Leixões).

A sua atividade profissional continuada nos domínios da hidráulica marítima, engenharia costeira e estruturas portuárias, valeu-lhe a atribuição, em 2009, pela Delegação Portuguesa da Pianc (Permanent International Navigation Congress) do Prémio “Fernando Abecasis”, de excelência de carreira.

Também na atividade associativa empresarial foi sempre muito ativo, tendo sido nomeadamente membro de vários órgãos da Appc (Associação Portuguesa de Projetistas e Consultores), eleito seu Presidente em 1998 e re-eleito sucessivamente em 2001 e 2004.

Fernando Silveira Ramos acompanhou e compatibilizou as suas atividades profissionais, empresariais e associativas com uma atividade social e política que exerce até hoje desde os tempos de estudante.

Como reconhecimento desta atividade profissional, empresarial, associativa, social e política, foi agraciado em 2005 com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Mérito Agrícola Comercial e Industrial, com que foi distinguido por Sua Excelência o Presidente da Republica, Dr. Jorge Sampaio.

Uma obra notável

O Molhe Norte da Barra do Douro integra-se num conjunto de obras na embocadura do estuário, cuja coerência e comportamento hidráulico e sedimentar são determinantes para o seu êxito. Alguns conceitos de sustentabilidade ambiental e de utilização urbana e lúdica desta obra marítima assumiram também especial relevância nalgumas opções efetuadas.

Os estudos, os projetos e as obras foram efetuados na sequência dum concurso público internacional de conceção/construção, acompanhado por uma comissão técnica independente e a solução selecionada validada por ensaios em modelo reduzido e matemático no Laboratório Nacional de Engenharia Civil.

Tendo o IPTM – Instituto Portuário e dos Transportes Marítimos, I.P. como dono de obra, a conceção geral das intervenções na barra do Douro esteve a cargo dum consórcio projetista liderado pelo Eng. Fernando Silveira Ramos e o desenvolvimento do projeto do Molhe Norte a cargo da Consulmar – Projetistas e Consultores, Lda. A construção da obra foi da responsabilidade da Construtores dos Molhes do Douro-ACE (Somague Engenharia/Irmãos Cavaco) e a sua fiscalização realizada pela DHV-Tecnopor/DHV-Fbo.

Os objetivos principais da intervenção na barra do Douro eram melhorar as condições de segurança das embarcações no canal da Barra, proteger as zonas marginais da Cantareira e do Passeio Alegre da ação destrutiva das ondas e correntes e facilitar a auto limpeza do canal, diminuindo o esforço das dragagens de manutenção.

Estes objetivos deviam ser atingidos tendo como preocupação minimizar o impacte ambiental sobre o Cabedelo e Bacia de S. Paio e o impacte visual das intervenções sobre as zonas urbanas adjacentes, bem como contribuir para a estabilidade das praias a jusante da Barra do Douro.

Para concretização desta obra foram prefabricados vários tipos de peças de betão armado, aduelas e caixotões, sendo de salientar a execução por deslize, em doca flutuante, no interior do Porto de Leixões, de 16 caixotões de grandes dimensões, alguns deles com cerca de 26 x 15 x 15 m.

Estes caixotões foram transportados um a um em flutuação, em mar aberto, durante cerca de 5 quilómetros. Foram então afundados no local, sobre uma base regularizada por mergulhadores, rigorosamente colocados justapostos e selados contra o fundo rochoso, formando a infraestrutura do Molhe Norte que, no final e em conjunto com o troço construído em aduelas, atinge cerca de meio quilómetro de comprimento.

Esta infraestrutura foi depois reforçada e completada já no local com uma superstrutura em betão, que no seu interior tem moldada uma galeria técnica, situada imediatamente abaixo do coroamento do Molhe, que garante o acesso ao Farol mesmo em condições de mau tempo.

Com a solução encontrada foram criados dois circuitos pedonais ligando a cabeça do novo Molhe ao Passeio Alegre. Um, no nível superior da estrutura, utilizável só em situações de bom tempo, e outro, no nível inferior, por uma galeria técnica dotada de vigias sobre o canal de entrada, utilizável em más condições de mar. Estes circuitos são interligados numa extremidade pelo interior do Farol e, na outra extremidade, pelo enraizamento do Molhe.

As soluções foram, desde início, muito criativas e inovadoras em todas as frentes de desenvolvimento do projeto, traduzidas nos conceitos e nos pormenores, na tecnologia, na integração urbana e na sustentabilidade ambiental.

Estas características estiveram especialmente presentes em dois momentos. Primeiro no trabalho coletivo e criativo de conceção geral (na preparação do concurso de conceção/construção) e, depois, no trabalho rigoroso, inovador e multidisciplinar de desenvolvimento das soluções estruturais e de construção, com especial referência aos trabalhos subaquáticos.

Caracterização geral da obra

Objetivos principais da intervenção na barra do Douro:

  • Facilitar a auto limpeza do canal, diminuindo o esforço das dragagens de manutenção;
  • Melhorar as condições de segurança na barra das embarcações;
  • Proteger as zonas marginais da Cantareira e do Passeio Alegre da acção destrutiva das ondas e correntes.

Estes objetivos deviam ser atingidos tendo como preocupação:

  • Minimizar o impacte ambiental sobre o Cabedelo e Bacia de S. Paio;
  • Minimizar o impacte visual das intervenções sobre as zonas urbanas adjacentes.

Conceitos e características técnicas das obras:

Molhe Norte integra-se portanto num conjunto de obras cuja coerência e comportamento hidráulico e sedimentar são determinantes para o seu êxito e cujas características técnicas foram inicialmente estabelecidos:

  • O Molhe Norte, francamente galgável para minimizar o seu impacte visual, que, conjugado com o quebra-mar Sul, garantirá maior segurança à navegação e reduzirá a agitação incidente sobre as zonas marginais;
  • O Quebra-mar Sul, destacado da margem, leva o Cabedelo a avançar, retomando posições mais perto das suas configurações históricas, mantendo-o com uma imagem naturalizada e reduzindo a altura das dunas no seu tardoz;
  • A obra de reforço do Cabedelo, parcialmente submersa, onde entronca o quebra-mar destacado, serve de apoio às dunas e dificulta a invasão do canal pelas areias;
  • A reconfiguração do Canal de Acesso, encostado a um Molhe Norte, fundado sobre rocha, é uma garantia contra fenómenos de infra-escavação provocada pelas fortes correntes de vazante e minimiza o esforço nas dragagens periódicas de manutenção.

Estes conceitos iniciais revelaram-se depois determinantes nas opções técnicas estruturais, como foi claramente o caso do Molhe Norte.

Materiais e Processos Construtivos no Molhe Norte

Foi assim proposto, projetado e construído na margem norte da embocadura do Douro uma estrutura resistente à ação direta das ondas de tempestade e das correntes das grandes cheias, onde estão incorporados mais de 65 000 m3 de betão e 2 500 ton de aço.

Para concretização dessa obra foram prefabricados vários tipos de peças, aduelas e caixotões, sendo de salientar a execução por deslize, em doca flutuante, no interior do Porto de Leixões, de 16 caixotões de grandes dimensões, alguns deles com cerca de 26 x 15 x 15 m.

Estes caixotões eram transportados um a um em flutuação, em mar aberto, durante cerca de 5 quilómetros. Eram então afundados sobre uma base regularizada por mergulhadores, rigorosamente colocados justapostos e selados contra o fundo rochoso, formando a infraestrutura do Molhe Norte que, no final e em conjunto com o troço em aduelas, teria cerca de meio quilómetro de comprimento.

Esta infraestrutura era reforçada e completada já no local com a superstrutura, que no seu interior tem moldada uma galeria técnica, situada imediatamente abaixo do coroamento, que garante o acesso ao Farol em quaisquer condições de tempo.

Com a solução encontrada foram criados dois circuitos pedonais ligando o Molhe ao Passeio Alegre. Um no nível superior da estrutura, utilizável só em situações de bom tempo, e outro, no nível inferior, pela galeria técnica, utilizável em qualquer situação de mar. Estes circuitos são interligados numa extremidade pelo interior do Farol e, na outra extremidade, pelo enraizamento do Molhe.

As soluções foram, desde início, muito criativas e inovadoras em todas as frentes de desenvolvimento do projeto, traduzidas no conceito e nos pormenores, na tecnologia, na integração urbana e na sustentabilidade ambiental. Estas características estiveram especialmente presentes em dois momentos. Primeiro no trabalho coletivo e criativo de conceção geral (na preparação do concurso de conceção/construção) e, depois, no trabalho rigoroso, inovador e multidisciplinar de desenvolvimento das soluções estruturais.

Dono de Obra:

IPTM – Instituto Portuário e dos Transportes Marítimos, I.P.
Eduardo Martins – Economista (Administrador – Coordenação Geral)
Francisco Lopes – Eng.º Civil (Administrador)
Amaral Coutinho – Eng.º Civil (Representante Local)
Ludgero Gonçalves (Representante Local)

Construtor:

Consórcio ACE – Molhes do Douro
Rui Vieira de Sá – Eng.º Civil (Somague Engenharia – Coordenação Geral)
Eduardo Gomes – Eng.º Civil (Irmãos Cavaco – Coordenação Geral)
Paulo Cruz Ferreira – Eng.º Civil (Somague Engenharia – Coordenação de Obra)
José Mota Fraga – Eng.º Civil (Somague Engenharia – Direcção de Obra)

Equipa de Projecto:

Consulmar – Projectistas e Consultores, Lda.
Fernando Silveira Ramos – Eng.º Civil (Direcção e Coordenação)
Carlos Abecasis – Eng.º Civil (Coordenador de Projecto)
Alexandre Ferreira da Costa – Eng.º Civil (Direcção do Projecto e AT na Obra)
Pedro Martins – Eng.º Civil (Estruturas)
Lucília Luís – Eng.ª Civil (Engenharia Costeira)
Miguel Robert – Eng.º Civil (Hidráulica Marítima)
José Manuel Morim de Oliveira – Eng.º Civil (Coordenador de Projecto)
Carlos Prata – Arquitecto
HIDROMOD – Modelação em Engenharia, Lda.
Adélio Silva – Eng.º Civil (Modelação Matemática)
PROCESL – Engenharia Hidráulica e Ambiental, Lda.
Nuno Matos – Biólogo (EIA)
Maria João Sousa – Eng.º do Ambiente (AT na Obra)
NEMUS – Gestão e Requalificação Ambiental, Lda.
Pedro Bettencourt – Geólogo (EIA)

Equipa de Fiscalização:

DHVTECNOPOR / DHVFBO
António Alves Dinis – Eng.º Civil (Coordenador)
José Joaquim Ranção Ferreira – Eng.º Civil (Engenheiro Residente)

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