Engenharia Civil 1999

Edifício Atrium Saldanha
Engº José Teixeira Trigo
Lisboa

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O Prémio Secil foi neste ano atribuído ao Eng.º José Teixeira Trigo, pelo projeto da estrutura do Edifício Atrium Saldanha.

Após duas edições do Prémio Secil de Engenharia Civil, em que se premiaram os projetos de grande obra pública – as Pontes Macau-Taipa e João Gomes – “…sucede uma atribuição que contempla uma obra de natureza completamente diversa, cumprindo-se assim um desígnio que desde o início presidiu à criação do prémio: a promoção da criatividade e da ousadia na conceção de soluções viáveis, qualquer que fosse a área da respetiva concretização.”

Nesta obra, grande parte dos elementos estruturais de betão armado não possui qualquer revestimento, sendo por isso o acabamento final constituído pelo próprio betão. Não obstante, conforme referiu o Presidente do Conselho de Administração da Imosal, “…a combinação simples do betão à vista, com a pedra e o vidro, resultam na beleza que todos podemos admirar e desfrutar. Os pilares em betão arquitetónico, com a sua forma elegante, desempenham a função estrutural e escultórica. São a marca de um estilo de arquitetura.”

Esta edição trouxe ainda outras importantes inovações: a possibilidade de se premiar obras fora do território nacional, a atualização do valor pecuniário do Prémio e a primeira edição do Concurso Universidades.

José d`Assunção Teixeira Trigo nasceu em 1937 em Pebane (Quelimane), Moçambique. Estudou em V.N. de Famalicão e no Porto. Nesta cidade concluiu o curso liceal e frequentou a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, onde terminou em 1960 a Licenciatura em Engenharia Civil, com a classificação de 17 valores. Esta classificação justificou o Prémio Associação Industrial Portuense atribuído à mais elevada classificação final de todos os cursos da Faculdade de Engenharia. Durante o curso recebeu os Prémios Teotónio Rodrigues e Bonfim Barreiros atribuídos às mais elevadas classificações em Resistência de Materiais e Estabilidade de Estruturas e em Caminhos-de-ferro.

Após mais de três anos de serviço militar obrigatório, quase todo prestado em Angola, ingressou na carreira de investigação do Laboratório Nacional de Engenharia Civil. Obteve o título de Especialista em Estruturas após provas públicas prestadas em 1968, nas quais defendeu a tese “Estruturas de Painéis sob a Ação de Solicitações Horizontais”. É, desde 1983, investigador coordenador, após novas provas públicas, onde defendeu o Programa “Industrialização da Construção de Edifícios. Contribuições para uma Política da Qualidade”.

Foi sucessivamente chefe de Núcleo e chefe do Departamento de Edifícios do LNEC, cargo que exerceu até 1990. Ao longo da sua carreira no LNEC desenvolveu atividades na observação de estruturas, na prefabricação pesada, nas tecnologias da construção de edifícios e na qualidade da construção. Coordena atividades no âmbito da Marca de Qualidade LNEC para Empreendimentos da Construção.

Desenvolveu uma significativa atividade no domínio do ensino da Engenharia, a qual foi iniciada em 1966 no Instituto Superior Técnico. Lecionou na Licenciatura de Engenharia Civil e no Mestrado em Construção do IST e também no Mestrado em Construção da FEUP. Colaborou em numerosos cursos de pós-graduação realizados no LNEC. Atualmente é professor catedrático da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, na qual dirige o Curso de Engenharia Civil e o Departamento de Engenharias e Tecnologias.

Tem continuado a colaborar com outras universidades, nomeadamente participando em júris para provas de mestrado e de doutoramento e em júris para a seleção de professores associados e catedráticos. Vem mantendo uma atividade quase contínua de consultoria e projeto de engenharia civil, nomeadamente na área das estruturas e fundações de edifícios. De entre esta atividade, destacam-se os projetos das seguintes obras:

  • Hotel Marinotel, em Vilamoura
  • Centro de Tecnologia Química e Biológica para a Agricultura, em Oeiras, actualmente ITQB da Universidade Nova;
  • Atrium Saldanha, em Lisboa
  • Reconstrução dos Armazéns do Chiado, em Lisboa;
  • Edifício ISCTE II para o Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, em Lisboa, ainda em construção.

É sabido que a atividade do engenheiro civil no projeto de edifícios se traduz pela materialização duma estrutura que assegure o adequado comportamento mecânico da construção idealizada pelo arquiteto e, bem assim, pela contribuição para a definição das soluções construtivas a adotar para a generalidade da obra. Algumas das colaborações havidas justificam que se faça referência aos prémios atribuídos às obras projetadas:

  • Bloco 8A do Quarteirão Rosa, da EPUL, no Restelo – com os Arqtos Nuno Teotónio Pereira, João Paciência e Pedro Botelho.
  • Prémio Valmor e Municipal de Arquitetura 1987 – Menção Honrosa;
  • Moradias em banda do Quarteirão Rosa, da EPUL, no Restelo – com os Arquitetos Pedro Botelho e Nuno Teotónio Pereira.
  • Prémio Valmor e Municipal de Arquitetura 1989;
  • Empreendimento Habitacional de Laveiras – Caxias, com os Arquitetos Nuno Teotónio Pereira e Pedro Botelho. Prémio INH, 1987/90;
  • Empreendimento Habitacional do Alto da Loba, em Paço d`Arcos, com os Arquitetos Nuno Teotónio Pereira e Pedro Botelho. Prémio INH, Menção Honrosa -1989/92;
  • Edifício de Habitação, no Pego Longo, com o Arquiteto Bartolomeu da Costa Cabral, Prémio INH, 1989/93.
  • Edifício INDEG/ISCTE, com o Arquiteto Raúl Hestnes Ferreira. Prémio Valmor e Municipal de Arquitetura 1993 – Menção Honrosa;
  • Edifício do Antigo “Café Lisboa”, com os Arquitetos Pedro Botelho, Nuno Teotónio Pereira e Mário Costa e Crespo. Prémio Municipal de Arquitetura Eugénio dos Santos/Reabilitação Urbana 1995.

É autor de centenas de publicações científicas e técnicas e membro efetivo da Academia da Engenharia.

O Edifício Atrium Saldanha localiza-se na Praça Duque de Saldanha, na confluência de duas das principais artérias de Lisboa, a Av. da República e a Av. Fontes Pereira de Melo, ocupando a quase totalidade de um quarteirão.

O desenvolvimento deste projeto colocou à equipa projetista uma série de desafios face aos diversos objetivos e condicionalismos que envolveram esta construção e que se traduziram pela necessidade de:

  • Concluir a escavação e construir muito rapidamente os pisos em cave, para atender às reservas associadas à durabilidade da contenção periférica anteriormente executada;
  • Garantir grande versatilidade de uso do edifício ainda sem ocupante ou ocupantes definidos;
  • Executar um edifício emblemático na cidade de Lisboa tirando partido dos elementos estruturais;
  • Garantir um átrio central a toda a altura, dada a grande profundidade do quarteirão;
  • Executar um edifício com estrutura económica e versátil, garantindo ainda um bom comportamento face às solicitações, em particular às ações verticais e sísmicas.

Estes desafios levaram a equipa de projeto a optar por:

  • Avançar com a obra e o projeto de estruturas em duas fases: na primeira fase, a construção das lajes das caves de modo a poder desativar as ancoragens provisórias; na segunda fase, a construção acima do nível do terreno;
  • Obter uma construção final sem juntas de dilatação, ocupando toda a planta disponível, com evidentes vantagens do ponto de vista da utilização do edifício e do seu comportamento sob a ação dos sismos, mas obrigando a conviver com esforços originados pela retração do betão e pelas variações térmicas;
  • Utilizar betão arquitetónico em grande parte da estrutura, tirando partido do betão como acabamento final;
  • Adotar uma estrutura de transição sob a zona do átrio central de modo a permitir uma malha estrutural diferente entre as caves e os pisos elevados.

O edifício tem a área total de 66.000 m2 distribuída por 18 pisos, dos quais 6 são em cave.

Os elementos verticais são constituídos por pilares, dispostos numa malha aproximadamente ortogonal de 7,5m x 7,5m e por quatro núcleos de acesso. Os pilares com maior área de influência nos pisos inferiores estão agrupados aos pares e têm 0,74m de diâmetro; acima do piso 0 são substituídos por um único pilar de 0,80m de diâmetro; no piso 6, o diâmetro reduz para 0,65m.

Os elementos horizontais são constituídos por lajes fungiformes: lajes maciças com 0,26m de espessura nas caves e lajes aligeiradas com 0,325m de espessura nos pisos elevados. Nestes pisos existem bandas maciças entre elementos verticais. Nas fachadas há vigas de bordo.

Na generalidade da construção optou-se por uma solução de fundações diretas, constituídas por sapatas isoladas para os pilares e por maciços para os núcleos de betão armado.

Localização: Praça Duque de Saldanha, Lisboa

Data do projeto: 1992

Data de construção: 1993

Projeto: Arq. Ricardo Bofill

Colaboradores: Paulo M. Santos Freire, Pedro Machado Trigo, João Leite Garcia, Jorge Reduto da Costa

Cliente: IMOSAL – Imobiliária do Saldanha, SA

Estrutura: Gabinete Teixeira Trigo, Lda.

Área do edifício: 66.000 m2

Construtor: EDIFER,SA; Construções Pires Coelho & Fernandes,SA

A forma clara e ordenada como se distribuem e interligam os elementos estruturais do edifício, apesar dos condicionamentos que à partida se colocavam para harmonizar a estrutura das caves com os pisos superiores, a opção pelo monolitismo da estrutura e a atenção muito especial que foi dedicada aos procedimentos construtivos para se atingir uma elevada qualidade de execução e um bom desempenho em serviço, fazem deste projeto um exemplo acabado da arte de organizar a matéria que é a essência da engenharia de estruturas.

José Luís Câncio Martins, Engenheiro,

Presidente do Júri, in Prémio Secil de Engenharia Civil 1999, edição Secil

Nós, na Praça Duque de Saldanha, construímos o Edifício Atrium Saldanha, procurando revolucionar a promoção imobiliária, e marcar a cidade, lançando a luta pela qualidade (…) Para a sua realização contribuiu, além de muitos, a própria Secil, que tecnicamente desenvolveu este tipo de betão, executando várias amostras, à dimensão natural, trabalho sem o qual a nobreza do edifício Atrium Saldanha não teria sido alcançada.

Amando G. Martins

Presidente do C. de Administração da Imosal, in Prémio Secil de Engenharia Civil 1999,edição Secil

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