Engenharia Civil 1997

Ponte João Gomes
Engº António Reis
Funchal, Madeira

Mais informações

Nesta segunda edição do Prémio Secil de Engenharia Civil, foi premiada a Ponte João Gomes, no Funchal, da autoria do Eng.º José António Luís dos Reis.

Mais uma vez, o Prémio procurou não só promover obras que incorporassem o produto da sua atividade – o betão estrutural – mas acima de tudo distinguir “a inovação, a criatividade e a qualidade e relevância da sua aplicação.”

Foi assim que, segundo o Presidente do Júri, apesar da “…valia técnica e as dificuldades de execução de outros projetos apresentados a concurso, acabou por ser a entidade estrutural “ponte” que melhor se adaptou aos objetivos do concurso e que mereceu a preferência do júri por unanimidade. Assim, foi novamente uma ponte a estrutura vencedora.”

Esta obra distinguiu-se ainda pelo desafio que representa a implantação de uma infraestrutura rodoviária no terreno tão particular da Região Autónoma da Madeira, conseguindo uma boa integração ambiental.

Pelo que o mesmo Júri julga “… ter consagrado uma obra de engenharia estrutural situada numa área do país que se impõe pelas suas belezas naturais e em que se exige do Homem um rigoroso contributo para a sua valorização e não para a sua “poluição” em termos estéticos e paisagísticos“.

António José Luís dos Reis, nascido em 1949 no Funchal, licenciou-se em Engenharia Civil pelo Instituto Superior Técnico em 1972 com a classificação final de 17 valores. Concluiu o Doutoramento em 1977 na Universidade de Waterloo, no Canadá, onde apresentou uma tese no domínio da Estabilidade de Estruturas. Obteve a equivalência ao grau de Doutor em Engenharia Civil pelas Universidades Portuguesas em 1977 e a Agregação em Engenharia de Estruturas pelo Instituto Superior Técnico (IST) em 1981.

Foi investigador convidado, em 1980, da Universidade de Surrey em Inglaterra. É Professor Catedrático do Departamento de Engenharia Civil do IST desde 1985, onde é responsável pelo núcleo de disciplinas de Pontes e Estruturas Especiais. Tem sido Vogal do Conselho Superior de Obras Públicas e Transportes e é, desde 1996, o Presidente do Departamento de Engenharia Civil do IST.

Iniciou a sua atividade profissional em 1972 tendo estado sempre ligado ao projeto, ao ensino e à investigação no domínio das pontes e estruturas especiais.

É autor de muitas publicações em revistas e comunicações a congressos internacionais, nomeadamente da American Society of Civil Engeneers (ASCE), International Association for Bridges and Structural Engineering (IABSE), Federation Internationale de la Precontrainte (FIP), Comité Euro-Internationale du Béton (CEB), European Convention for Construction Steelwork (ECCS). Comité Euro-Internationale du Béton (CEB), and Structural Stability Research Council (SSRC).

É o representante nacional na comissão do Eurocódigo 3 – Estruturas de aço, no âmbito da Comunidade Europeia e consultor da JAE e da REFER para o Projeto de Instalação Ferroviária na Ponte sobre o Tejo em Lisboa.

Em 1979 foi membro fundador da empresa GRID – Consultas, Estudos e Projetos de Engenharia, Lda., na qual é sócio gerente e Diretor Técnico. Durante os seus 25 anos de atividade profissional tem sido responsável pela conceção, projeto e direção técnica de mais de uma centena de obras e autor de vários estudos, pareceres e relatórios técnicos.

Tem participado em alguns estudos e projetos para obras no estrangeiro, nomeadamente para Espanha (1979), Roménia (1978), Arábia Saudita (1980), Moçambique (1984, 1992), Uruguai (1994) e presentemente iniciou o seu envolvimento em projetos para Angola e para o Bahrain. A sua atividade principal como projetista tem sido no entanto desenvolvida principalmente para obras em Portugal Continental, Madeira, Açores e Macau.

Neste âmbito, tem sido responsável pela conceção e projeto de pontes e viadutos de betão armado pré esforçado ou em estrutura mista aço betão, executadas por vários processos construtivos, nomeadamente – pontes e viadutos construídos com cavalete ao solo (cerca de meia centena), pontes construídas com cimbres autolancáveis, vigas préfabricadas ou por lançamento incremental (mais de uma dezena) e pontes construídas por avanços sucessivos (cerca de duas dezenas de projetos), bem como alguns estudos de pontes de tirantes.

Entre vários estudos e projetos de estruturas especiais pelos quais tem sido responsável destacam-se a estrutura para o novo Emissor de Monsanto da TDP (1991; altura 106m), a cobertura atirantada para o novo Centro de Feiras do Funchal (1990) e a solução em estrutura para o Aeroporto Internacional de Macau (1989).

No domínio das pontes e no âmbito da sua atividade na GRID, tem sido responsável pela conceção e desenvolvimento de vários projetos, dos quais se destacam:

  • Ponte do Freixo sobre o rio Douro no Porto (1989; Vão: 150 m; Comprimento: 706 m);
  • Ponte João Gomes (1988; Vão: 125 m; Altura pilares: 105 m);
  • Ponte sobre o rio Sado em Alcácer do Sal e Viadutos de Acesso (1987; Comp.: 1200 m);
  • Ponte dos Socorridos na Saída Oeste do Funchal (1986; Vão: 106 m);
  • Ponte do Vigário (Vão: 104 m) / Viaduto do Porto Novo (Vãos: 80 m; Comp.: 360 m)
  • Viaduto sobre a EN 115 (CREL; Comprimento: 500 m) / Viaduto das Amoreiras (Comp.: 550 m)
  • Viaduto do Lousado (AE Braga – Valença; comp.; 743 m)
  • Viadutos sobre as Ribeiras da Pera e dos Frades (IC8)
  • Viaduto do C.Comboio (Vão: 92 m; tirantes) / Ponte de Santo Tirso (tirantes).

Foi ainda responsável por um dos primeiros e maiores projetos de tabuleiros de pontes montados, em Portugal, por lançamento incremental – o Tabuleiro Ferroviário para o Viaduto de Alcântara em construção no acesso à Ponte sobre o Rio Tejo, em estrutura mais aço-betão. É ainda autor dos Projetos dos Viadutos de um dos Consórcios à Construção do Metropolitano do Porto. Tem desenvolvido também projetos de reabilitação de pontes, destacando-se neste aspeto o Reforço e Beneficiação do Viaduto de Alcântara de Acesso à Ponte sobre o Tejo em Lisboa, o Reforço e Instalação do Tabuleiro Ferroviário na Ponte Luís I para o Metropolitano do Porto (Concurso), a Ponte sobre o Rio Corgo em Vila-Real e a Ponte Rodo-Ferroviária de Valença no Minho entre Portugal e Espanha.

A “Circular à Cidade do Funchal – Cota 200”, cuja 1ª Fase foi inaugurada em 1996, estabelece a ligação entre a Via Rápida Funchal – Aeroporto, presentemente em construção, e a Via Rápida da Saída Oeste do Funchal.

A “Cota 200” é uma via executada em condições particularmente difíceis pela sua inserção num tecido urbano densamente edificado e com dificuldades acrescidas por condicionamentos topográficos, geotécnicos e ambientais.

O atravessamento em ponte do Vale da Ribeira de João Gomes, constitui um marco importante no domínio das obras de engenharia realizadas na última década na Região Autónoma da Madeira.

A Ponte João Gomes é uma obra simples na sua aparência, discreta no seu enquadramento, mas imponente na sua estrutura. É presentemente uma das pontes mais altas em Portugal, estando a sua rasante a cerca de 140 metros de altura em relação ao leito da ribeira.

Descrição

A ponte está localizada num vale profundo, possui um perfil transversal para quatro vias de tráfego e tem um comprimento total, entre eixos de aparelhos de apoio nos encontros, de 274,5 metros. A estrutura é um pórtico de três vãos, sendo o central de 125,0 m e os laterais de 77,0 m e 72,5 m, respetivamente dos lados oeste e este.

É totalmente realizada em betão, sendo a sua superstrutura um caixão monocelular de betão armado pré-esforçado e os pilares, que atingem cerca de 105,0 metros de altura, possuem fustes de betão armado e secção tubular variável apenas na direção transversal. Os encontros são encontros de betão armado, distinguindo-se o encontro do lado nascente pelas suas dimensões e complexidade geométrica, devidas à transição com o Túnel do Jardim Botânico.

As fundações dos pilares e encontros são diretas no complexo basáltico, pese embora o facto da fundação do pilar da margem direita ter sido executada a cerca de 30,0 metros de profundidade em relação à cota da superfície dos depósitos de vertente. Devido à fraturação e diaclasamento existente no maciço rochoso onde se localiza o encontro oeste, houve necessidade de proceder a um tratamento especial deste maciço por intermédio de injeções e pregagens.

A grande flexibilidade do pilar da margem direita, devida à sua altura, permitiu que o tabuleiro possua aparelhos de apoio fixos no encontro do lado nascente e aparelhos de apoio móveis unidirecionais no encontro do lado poente. Reduziram-se assim os efeitos geometricamente não lineares (efeitos da instabilidade) nos pilares, para a fase de exploração da obra, já que na fase construtiva, antes dos fechos do tabuleiro, os pilares funcionam em consola.

Ficha Técnica obra: Ponte João Gomes

Localização: Funchal-Madeira

Data de construção:1994-1996

Cliente: Secretaria Regional do Equipamento Social e Ambiente do Governo Regional da Madeira

Construtor: Construtora do Tâmega/Somague

Fiscalização: Eng.º Vítor Gonçalves, Eng.º Luís Conduto

Conceção e Direção Técnica: Prof. António Reis e GRID

Estruturas e Fundações: Prof. António Reis, Eng.º Daniel de Sousa e GRID

Estudo Geológico Geotécnico: Eng.º Mateus de Brito e CENOR-Consultores, Lda.

O Prémio Secil de Engenharia Civil, instituído com o objetivo de eleger de entre os projetos relevantes da autoria de engenheiros portugueses, o de maior importância no domínio da utilização de betão estrutural constitui, para quem o recebe, uma distinção que reconhece o seu muito elevado mérito profissional. Deve por isso ser devidamente enfatizada a capacidade técnico-científica e o espírito criativo do galardoado e reconhecido que a engenharia nacional atingiu já um nível qualitativo que rivaliza com o que de melhor existe no mundo. A obra premiada, a ponte João Gomes, no Funchal, sendo relevante do ponto de vista da sua conceção constitui, pela sua singularidade, uma solução inovadora que consagra o mérito do seu autor, prestigia a engenharia portuguesa e estabelece uma marca de qualidade da profissão.

Horácio Maia e Costa

Bastonário da Ordem dos Engenheiros, in Prémio Secil de Engenharia Civil 1997, edição Secil

A consciência, cada vez mais assumida, da necessidade de compatibilizar a implantação dos novos eixos viários, com a orografia por um lado e o património ambiental por outro, conduziu, nos últimos anos, à construção de um número considerável de viadutos e pontes na RAM (Região Autónoma da Madeira). (…) De entre tal diversidade, merece especial destaque a Ponte de João Gomes que, com a altura de 140 metros, passou a constituir uma das mais altas de Portugal, onde se confirma o “engenho” do projetista e da qualidade da construção.

Jorge Manuel Jardim Fernandes

Secretário Regional da Madeira, in Prémio Secil de Engenharia Civil 1997,edição Secil

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